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O Bom Samaritano

O Bom Samaritano

Peter Amsterdam

A Parábola do Bom Samaritano em Lucas 10:25-27 é muito conhecida. Entretanto, por vivermos em culturas muito diferentes da que prevalecia na Palestina do primeiro século, há aspectos da história que talvez não entendamos. Quando ouvimos ou lemos essa parábola, ela não necessariamente nos choca nem desafia o status quo do mundo de hoje. Contudo, a história causou espanto aos seus primeiros ouvintes, ao contrariar suas expectativas e desafiar seus limites culturais.

Encontram-se na parábola várias personagens e saber um pouco mais sobre os sacerdotes, os levitas e os samaritanos ajuda a formar um entendimento mais amplo da importância do papel de cada um na história.Vamos analisar cada uma das personagens na ordem em que aparecem no relato.

A vítima

A parábola nos fala muito pouco sobre a primeira personagem, o homem que foi assaltado, mas dá uma informação crucial ao entendimento da história. Foram-lhe roubadas as roupas e ele foi deixado à morte. Ele estava deitado no chão, seriamente ferido e inconsciente.[1]

Isso é importante porque, no primeiro século, as pessoas eram facilmente identificadas pelas suas vestimentas, idioma ou sotaque. Nos tempos de Jesus, o Oriente Médio era dominado pelos romanos, que falavam latim. A região era helenizada, o que quer dizer que tinha forte influência dos gregos. Havia muitas cidades cuja população era predominantemente grega e o idioma grego era muito difundido. Os eruditos judeus falavam hebraico; os camponeses judeus e as pessoas comuns de toda a região, aramaico. Por isso, era possível identificar a origem de uma pessoa pela sua fala.

Como o homem que fora agredido estava sem roupas, era impossível identificar sua nacionalidade. Como estava inconsciente e, portanto, incapaz de falar, não havia como saber a sua origem. Isso, veremos, é um fator-chave na parábola.

O sacerdote

A segunda personagem na história é o sacerdote. Os sacerdotes judeus em Israel constituíam o clero e ministravam no templo em Jerusalém. Havia uma hierarquia no sacerdócio, na qual o sumo sacerdote ocupava a posição mais elevada, seguido pelos principais sacerdotes, dentre os quais se destacava o capitão do templo. A ele respondiam sacerdotes que serviam como tesoureiros do templo, supervisores do templo e os sacerdotes responsáveis pelos sacerdotes comuns.

Os sacerdotes comuns ministravam no templo por uma semana, durante um período de 24 semanas. Portanto, cada sacerdote ministrava no templo duas vezes por ano. Nem todos os sacerdotes viviam em Jerusalém. Muitos moravam em Jericó ou em outras cidades espalhadas em Israel e, por isso, tinham de viajar entre cidades, de duas a cinco vezes por ano.

A história não dá detalhes sobre o sacerdote nesse relato, mas os presentes quando Jesus a contou provavelmente imaginaram que o religioso voltava para Jericó depois de passar uma semana ministrando no templo.[2]

O Levita

A terceira personagem na parábola é o levita. Todos os sacerdotes eram levitas, mas nem todos os levitas eram sacerdotes. Contudo, mesmo os levitas não sacerdotes tinham funções no templo. Eram considerados o baixo clero, um nível abaixo dos sacerdotes e, como estes, serviam duas semanas por ano, em dois momentos diferentes.

Alguns levitas eram cantores e músicos. Outros eram servos do templo, responsáveis pela sua limpeza e manutenção, além de ajudarem os sacerdotes a colocar e tirar suas vestimentas. A força policial do templo também era composta de levitas, que montavam guarda às portas do templo e no pátio dos gentios, assim como no exterior dos locais onde apenas os sacerdotes podiam entrar. Eles também efetuavam prisões e administravam punições quando assim era determinado pelo sinédrio, o tribunal judaico na época.

O samaritano

Os samaritanos viviam na região montanhosa de Samaria, localizada entre a Galileia, no Norte, e a Judeia, no Sul. Eles acreditavam nos primeiros cinco livros de Moisés e que Deus havia designado o Monte Gerizim como o lugar de adoração, não Jerusalém.

Em 128 a.C., o templo samaritano, construído sobre o Monte Gerizim foi destruído pelo exército judeu. No ano 6 ou 7 d.C., alguns samaritanos espalharam ossos humanos no templo judaico, profanando-o. Esses dois eventos são importantes fatores na profunda animosidade que existia entre os dois povos. Essa aversão mútua é evidente no Novo Testamento. A viagem da Galileia para o sul, para Jerusalém, era muito demorada para os judeus, pois era comum darem uma grande volta para não passarem pela região de Samaria. Isso significava um acréscimo de 40 quilômetros ao trajeto, tornando a viagem dois ou três dias mais longa.

Os judeus chamavam os outros judeus de “samaritanos”, quando queriam insultá-los, como fizeram uma vez com Jesus, ao dizerem: “Não temos razão em dizer que és samaritano, e que estás possesso de demônio?”[3] Foi nesse contexto de hostilidade cultural, racial e religiosa que Jesus contou a parábola do Bom Samaritano.[4]

O Advogado

Nossa última personagem é o advogado. Apesar de não fazer parte da parábola, foi por causa das perguntas que fez a Jesus que a parábola foi contada. Sem o diálogo que ocorreu entre os dois, a parábola perde seu contexto original e importantes elementos necessários ao seu completo entendimento.

Nos tempos no Novo Testamento, os advogados eram o mesmo que um escriba. Eram especialistas em leis religiosas, intérpretes e professores das leis de Moisés. Examinavam as questões mais difíceis e sutis da lei e davam opiniões. Eram altamente estimados pelo seu conhecimento e, como sinal de respeito, as pessoas se levantavam ao lhes dirigirem uma pergunta.

Era comum esses professores debaterem entre eles e com os rabis questões relacionadas à interpretação e ao entendimento das Escrituras. A motivação daquele advogado ao questionar Jesus era, possivelmente, dar início a um debate desses, ou, talvez, estivesse genuinamente em uma busca espiritual.

A Parábola

Agora que sabemos mais sobre as personagens, vejamos o que ocorreu quando Jesus foi questionado pelo advogado, conforme relata o capítulo 10 do Livro de Lucas, no versículo 25: Certa ocasião, um perito na lei levantou-se para pôr Jesus à prova e lhe perguntou: “Mestre, o que preciso fazer para herdar a vida eterna?”

O advogado se levantou ao falar com Jesus e o chamou “Mestre”. Em outras passagens do Evangelho, Jesus é chamado “Rabi”, título dado aos professores religiosos. Como obter a vida eterna era uma questão debatida pelos estudiosos judeus do primeiro século, com ênfase à obediência da lei como meio para conquistar a vida eterna.[5]

“O que está escrito na Lei?”, respondeu Jesus. “Como você a lê?” Ele [o advogado] respondeu: “Ame o Senhor, o seu Deus, de todo o seu coração, de toda a sua alma, de todas as suas forças e de todo o seu entendimento” e “Ame o seu próximo como a si mesmo.”[6]

Como os evangelhos deixam bem claro, era exatamente o que Jesus costumava pregar Jesus disse ao estudioso da lei que ele tinha razão e que este deveria praticar esses dois princípios: amar Deus de todo coração e seu próximo como a si mesmo.

A próxima fala do advogado revela que estava buscando uma forma de justificação diante de Deus. O homem quer saber o que ele tem de fazer, que obras, que ações são necessárias para sua justificação. Em outras palavras, para merecer a salvação. Ele [o advogado], porém, querendo justificar-se a si mesmo, disse a Jesus: “E quem é o meu próximo?”[7]

O advogado se julga capaz de amar Deus e observar a lei, mas essa questão de “amar o próximo” lhe parece um pouco vaga ou nebulosa. Por isso, quer saber quem é seu próximo, quem, exatamente, precisa amar. Compreende que seu próximo inclui outros judeus. Mas existiria mais alguém? Os gentios não eram vistos como “próximos”, apesar de Levítico 19:34 ensinar: Como o natural entre vós será o estrangeiro que peregrina convosco. Amá-lo-eis como a vós mesmos…

Por isso, para aquele estudioso, os “próximos” seriam os judeus de uma maneira geral e qualquer estrangeiro que vivesse na mesma cidade que eles. Outros não seriam, certamente, “próximos”, em particular os odiados samaritanos. Foi em resposta a essa pergunta —“Quem é meu próximo?”, ou “A quem preciso amar?”— que Jesus contou a parábola.

Respondeu-lhe Jesus: Descia um homem de Jerusalém para Jericó, e caiu nas mãos dos assaltantes, os quais o despojaram e, espancando-o, se retiraram, deixando-o meio morto.”[8]

A viagem para Jericó era cerca de 27 quilômetros morro abaixo. O caminho era notoriamente perigoso por causa dos ladrões. Naqueles tempos, no Oriente Médio, os ladrões espancavam suas vítimas apenas se estas resistissem, o que parece ter sido o caso do homem em questão, pois foi despido, espancado e deixado inconsciente, “meio morto”, uma condição que os rabis classificavam como a ponto de morrer. Casualmente descia pelo mesmo caminho certo sacerdote que, vendo-o, passou de largo.[9]

É provável que o sacerdote estivesse retornando de uma de suas semanas de serviço no templo. Por causa do seu status, pode-se supor que montasse um burro, no qual poderia transportar o ferido até Jericó. O problema era que não havia como determinar quem era aquele homem nem sua nacionalidade, já que estava inconsciente e nu. O sacerdote estava sob o dever estipulado pela lei mosaica de ajudar outro judeu, mas não um estrangeiro, uma diferença que o estado da vítima não permitia que fosse estabelecida.

Além disso, o sacerdote não sabia se aquele homem estava ou não morto e, segundo a lei mosaica, tornava-se impuro do ponto de vista cerimonial quem tocasse ou se aproximasse de um cadáver. Se chegasse a uma distância de dois metros e ele já tivesse falecido, o sacerdote estaria impuro e reverter esse estado demandaria uma semana de rituais religiosos, que incluíam a compra de um animal para sacrifício.[10] De forma que ajudar aquele homem não identificado teria um custo considerável para o sacerdote. Independentemente do motivo, decidiu não socorrer o homem, passando pelo outro lado da estrada, para garantir uma distância adequada do desconhecido.

A parábola continua: De igual modo também um levita chegou àquele lugar e, vendo-o, passou de largo.[11]

O levita, provavelmente no caminho de volta para casa depois da sua semana a serviço do templo, faz o mesmo que fizera o sacerdote: decide não ajudar.

O levita, por ser de um status social inferior ao do sacerdote, seguia, provavelmente, a pé. Apesar de não dispor dos meios para levar o homem a qualquer parte, poderia ter oferecido algum tipo de primeiros socorros, pois não estava sujeito às mesmas leis de purificação sob as quais se encontrava o sacerdote. Não é dito por que o segundo homem que se deparou com a vítima “passou de largo”, mas é possível que, sabendo que o sacerdote, profundo conhecedor das leis e obrigações religiosas, nada fez, o levita tenha suposto que o melhor seria se ele tampouco fizesse coisa alguma. Outro possível motivo para sua omissão pode ter sido o medo de se expor a algum risco. Talvez os malfeitores ainda estivessem nas redondezas e parar ali para socorrer o moribundo poderia significar se expor ao risco de também ser atacado.

Entretanto, Jesus contrariou radicalmente as expectativas ao anunciar que a terceira personagem da trama era um desprezado samaritano, um inimigo. Jesus relata as coisas que o samaritano faz pela vítima de assalto, as quais o sacerdote e o levita, que serviam no templo, deveriam ter feito.

Mas um samaritano, que ia de viagem, chegou perto dele, viu-o e moveu-se de compaixão. Aproximando-se, atou-lhe as feridas, deitando-lhes azeite e vinho. Então pondo-o sobre a sua cavalgadura, levou-o para uma hospedaria e cuidou dele.[12]

O samaritano, provavelmente um comerciante que transportava vinho e óleo, que por ali viajava com pelo menos um animal, se compadece do homem à beira do caminho. Sua primeira ação foi enfaixar suas feridas. Em seguida, derrama sobre o pano vinho e óleo para limpeza, desinfecção e cura.

O benfeitor também ergue o ferido, coloca-o sobre seu próprio animal e o leva para uma hospedaria em Jericó, presume-se. O sacerdote poderia ter levado o homem para Jericó para que fosse socorrido, o levita poderia pelo menos ter oferecido alguma assistência, mas foi o samaritano quem fez o que os outros dois não fizeram.

O homem de Samaria leva o ferido para uma hospedaria e cuida dele lá. Para sua própria segurança, teria sido mais sensato ter deixado o homem perto da cidade, talvez ao portão da mesma, mas preferiu levá-lo para a hospedaria, onde passou a noite cuidando dele. E não parou aí.

Partindo no outro dia, tirou dois denários, deu-os ao hospedeiro, e disse-lhe: Cuida dele, e tudo o que de mais gastares com ele eu te pagarei quando voltar.'[13]

Dois denários eram o equivalente ao pagamento por dois dias de trabalho. A promessa do samaritano de voltar e pagar quaisquer despesas adicionais garantiu a segurança e a continuação do cuidado do assaltado. É provável que o samaritano costumasse fazer negócios em Jerusalém e com frequência passassem por Jericó para isso. Por ser um cliente da hospedaria já conhecido, o hospedeiro aceitou a promessa de que voltaria e acertaria quaisquer pendências que viessem a surgir.

Ao terminar a história, Jesus perguntou ao especialista em leis: “Qual destes três te parece que foi o próximo daquele que caiu nas mãos dos assaltantes?” Ele disse: “O que usou de misericórdia para com ele.” Disse Jesus: “Vai, e faze da mesma maneira.”[14]

Em resposta à pergunta do advogado —“Quem é meu próximo?”—, Jesus não foi específico como o questionador esperava. Em vez disso, contou-lhe uma história e lhe perguntou quem havia dado provas de ser o próximo. O estudioso queria uma resposta categórica, preto no branco. Esperava que Jesus especificasse que os próximos seriam os judeus, os convertidos ao judaísmo e os estrangeiros que vivessem na sua comunidade. Mas a resposta de Jesus não foi uma listinha dos que o advogado teria a responsabilidade de amar ou considerar “próximos”, mas ensinou que o “seu próximo” é todo aquele que Deus traz para o seu caminho que tenha alguma necessidade.

As últimas palavras de Jesus ao estudioso da Lei – “Vai e faze o mesmo” – demonstraram ao questionador que este estava fazendo a pergunta errada. Em vez de identificar quem a lei o obrigava amar, deveria se perguntar: “De quem posso me tornar um próximo?” Com essa parábola, Jesus estava deixando claro que seu (nosso) próximo é qualquer um que precise, independentemente de sua raça, religião ou posição na comunidade. A mensagem de Jesus tornou evidente não haver limites quando se trata por quem deveríamos ter amor e compaixão. A compaixão vai além das exigências da lei. Devemos inclusive amar nossos inimigos.

Ser um próximo daqueles que precisam pode sair caro. O samaritano arriscou a própria segurança, teve despesas na forma de azeite, vinho, tecido e dinheiro. Custou-lhe tempo, energia e recursos. Amar os outros é um sacrifício e, às vezes, até um risco.

Enquanto cristãos, discípulos de Jesus, somos chamados para amar nossos próximos como a nós mesmos. Não há regras rígidas que definam quem são essas pessoas, mas está claro que quando o Senhor coloca no seu caminho alguém que tenha uma necessidade, espera que você assuma ser o próximo dessa pessoa.

O desafio da parábola é: “Vai e faze o mesmo.” Em outras palavras, seja compassivo e amoroso.

Os homens e as mulheres abatidos que cruzarem seu caminho talvez não estejam fisicamente à morte nem jogados à beira da estrada. Mas tantos precisam sentir amor e compaixão, encontrar uma mão amiga, alguém que esteja disposto a escutar suas mágoas, que as faça sentir que, sim, são importantes, que as ame e se importe por elas. E se Deus colocou você no caminho de alguém em necessidade, deve estar chamando você para ser o próximo dessa pessoa.

Você pode demonstrar compaixão oferecendo assistência material, apoio emocional, amizade ou ajuda espiritual. Pode ajudar alguém em necessidade financeira, ou dando apoio moral ou conectando-os a Jesus e Sua Palavra.

Jesus definiu o padrão de amor e compaixão nesta parábola e concluiu dizendo para mim e para você —os ouvintes de hoje para irmos e fazermos o mesmo.

A menos que indicado ao contrário, todas as referências às Escrituras foram extraídas da “Bíblia Sagrada” — Tradução de João Ferreira de Almeida — Edição Contemporânea, Copyright © 1990, por Editora Vida.

Se quiser mais artigos de Peter Amsterdam, visite o Espaço dos Diretores.


Notas de rodapé

[1] Lucas 10:30. (A menos que indicado ao contrário, todas as referências às Escrituras foram extraídas da “Bíblia Sagrada” — Tradução de João Ferreira de Almeida — Edição Contemporânea, Copyright © 1990, por Editora Vida.

[2] Informações sobre o sacerdócio e o templo, fornecidas por Joachim Jeremiah, Jerusalem in the Time of Jesus (Philadelphia: Fortress Press, 1975).

[3] João 8:48.

[4] Joel B. Green, Scot McKnight, Dictionary of Jesus and the Gospels (Downers Grove: InterVarsity Press, 1992), 725–728.

[5] Ao escrever este artigo, consultei extensivamente os excelentes livros de Kenneth E. Baily: Jesus Through Middle Eastern Eyes (Downers Grove: InterVarsity Press, 2008). Poet & Peasant, and Through Peasant Eyes, edição combinada (Grand Rapids: William B. Eerdmans Publishing Company, 1985).

[6] Lucas 10:26–27.

[7] Lucas 10:29.

[8] Lucas 10:30.

[9] Lucas 10:31.

[10] Kenneth E. Bailey, Poet & Peasant, and Through Peasant Eyes, edição combinada (Grand Rapids: William B. Eerdmans Publishing Company, 1985), 44.

[11] Lucas 10:32.

[12] Lucas 10:33–34.

[13] Lucas 10:35.

[14] Lucas 10:36-37.